A Cabra Alada
Sexta 20h e Domingo 14h, Ribeira, Olinda, PE

Era uma vez um pastoril, do Véio Tropeço, que se apresentava em Olinda, na escadaria da Igreja de São João. Coisa mais rumorosa não tinha, nos montes da Marim dos Caetés, pois além do velho safado e suas pastoras "viradas no mói-de-coentro", o pastoril era sempre acompanhado por um papagaio, Hermenegildo, que tinha decorado todas as falas do Véio e as respostas das senhoras donas pastoras...

Como se não bastasse, o Pastoril do Véio Tropeço se apresentava não só no São João mas no Carnaval, Reis, Natal, Páscoa... era só aparecer uma gelada ou pitú que o Véio juntava a trupe e mandava ver!...

Numa destas apresentações monumentais, numa sexta 2 de fevereiro, acompanhada por vasta multidão e regada por tudo que tinha álcool dentro, aí incluído o Pau do Índio do Seu Cardoso, que Deus o tenha, Hermenegildo, mais animado do que coceira em dia de calor, perdeu o tino e, num rasante, entrou na brincadeira! A gravidade era mais forte e Hermenegildo, com o controle muscular do fiofó comprometido pelo álcool e pra seu desespero,... acabou cagando na careca do Véio!

No que acabou o pastoril, sua sobrevivência estava ameaçada e vidas e almas do papagaio, seus progenitores e toda a sua descendência iam ser uma desgraceira só... pela quantidade de pragas rogadas pelo Véio enquanto bombardeava a torre da igreja de São João, onde o papagaio estava escondido e cujo sino mais parecia um carrilhão, de tanto badalar com as pedradas do Véio...

A única chance de Hermenegildo surgiu de uma praga adicional lançada pelo Véio, num esgar de ódio, riso e desafio:

"Papagaio filho-de-uma-égua! Tu só vai chegar perto do pastoril e de Olinda, de novo, cabra safado dos seiscentos cachorros da molesta preta do diabo, se tu aparecer aqui montado numa cabra voadora, louro da gota serena, filho de uma quenga com guarda noturno!"
Hermenegildo, de repente, tava banido de Olinda e do Carnaval! Onde ia achar uma cabra alada? Mal tinha visto cabras de vera em Olinda que, cheia de montes, tinha mais suínos que caprinos nas ruas... Voando, saiu numa empreitada de descobrimento de cabras voadoras, e ainda tava no Carmo quando, açoitado por um pé-de-vento, tomou o rumo do sertão.

Danou-se pro pôr-do-sol e baixando em vilas, cidades, fazendas e aldeias, assuntava sobre cabras aladas... e a fauna embolava de rir, pois desde o tempo que os animais falavam isso era assombração.

Cansado, abatido e arrombado com a extensão de sua prosopopéia sertaneja, num calor de lascar o cano, seis dias e seis noites voando, tava nosso herói às portas do desespero quando parou as asas na Serra do Urubu, num pé de jurema dos grandes, rezou pra Santana e dormiu...

No meio do pesadelo da perda do maior carnaval do mundo, no que o Homem da Meia Noite saía de manhã, em cima d'A Porta, se lavando com Os Ensaboados, despertou com um rufar esquisito, a poeira levantando e uma zabumba no chão, pareciam... CASCOS!... Achou que era uma praga do Véio!...

Escondido na noite do sertão, viu a maior cabra que já encontrara, das sestrosas e zangadas, zói de fogo, com GRANDES ASAS, pousando... Que arretado!!!

A vontade de brincar carnaval ainda naquele ano era maior que o pavor e Hermenegildo, cubando a situação, danou-se a palestrar e descobriu que ela havia sido encantada por um catimbozeiro que lhe devia um favor --e que agora não mais sabia como tirar-lhe as asas...!

De bate pronto, Hermenegildo contou a história de Olinda, do Carnaval, e também da sua altercação com o Véio Tropeço, com uma velocidade que nenhum menino-que-conta-história conseguiu até hoje, no que implorou pra cabra resolver sua miséria.

A cabra, que atendia pelo nome Anunciação e pela alcunha de Ciça, interessada na folia e desconfiada da safadeza do papagaio, resolveu entrar no samba com Hermenegildo (que na matreirice já chamava de Gigi) e deixou-se montar por seis dias e seis noites de aventura e encantamento, na volta pro mar. Amanheceram, na sexta de carnaval, nas escadarias de S. João, em Olinda, onde o Véio encerrava mais uma noite de labuta e esculhambação e quase morreu de susto quando o papagaio e a cabra pousaram!...

Pego pela palavra, teve que deixar o papagaio voltar à torre, apesar de ter jurado pegar o fi'-d'uma-égua na virada, era só ele dormir no ponto...

Hermenegildo & Anunciação, por sua vez, vivem felizes até hoje lá pras bandas do Amparo, pousando em tudo que é teto, torre e terraço, batendo sinos e quebrando telhas em noites de estrupício e safadeza, acompanhando o Véio Tropeço por tudo que é festa, velório, casamento e baderna, quermesse, feira e comício.

Prá comemorar a união e o final feliz de tão destrambelhada estória, a gente bota A Cabra Alada na rua, no Carnaval de 96, com o Véio Tropeço e tudo, de roxo, vermelho e ouro, com um batuque forte como o povo de Olinda, Recife e o Carnaval de Pernambuco!

Maracatu, Ciranda, Côco, Caboclinho, Xote, Xaxado... abram alas: Aí vem... A CABRA ALADA!

Prosa e verso & música de Silvio Meira, sobre tema do artista plástico João Neto.
Ribeira, Olinda 13.02.96