PESQUISA E DESENVOLVIMENTO EM COMPUTAÇÃO: SITUAÇÃO E PERSPECTIVAS

Claudia Bauzer Medeiros
Instituto de Computação - UNICAMP


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1. Introdução

Este trabalho analisa a situação e perspectivas da Pesquisa e Desenvolvimento (P & D) em Computação no Brasil e mecanismos para definição de uma agenda, a longo prazo, para alavancá-la.

Os problemas para a elaboração da agenda são analisados fazendo uma analogia com o processo do tratamento médico de um paciente. O paciente, no caso P & D em Computação, precisa ter seus problemas diagnosticados, planejando-se o tratamento de forma a considerar o processo de avaliação e acompanhamento do tratamento.

Esta analogia não significa de forma alguma que devemos considerar que a Computação brasileira é um ser doente. Muito pelo contrário, há vários indicadores extremamente positivos da evolução da P & D na área, como por exemplo:

Malgrado tais indicadores positivos, existe uma necessidade de definir uma agenda e um conjunto de ações, a longo prazo, para permitir o crescimento sustentado da área no Brasil. O estabelecimento desta agenda passa necessariamente pelas etapas de diagnóstico (análise da Situação e Perspectivas), planejamento (das Ações) e acompanhamento (de sua Execução). Estas três etapas são as mesmas encontradas no processo de tratamento médico, surgindo daí a analogia utilizada.

A seção 2 deste texto se dedica a analisar o modelo médico-paciente e seu relacionamento com o problema abordado. Partindo-se, a seguir, do pressuposto que o enfoque "diagnóstico" "terapia" "avaliação" é adequado, as seções subsequentes discutem estes pontos, levantando problemas e sugerindo soluções. A seção 3 aborda algumas formas para "diagnóstico" da Situação.

A seção 4 discorre sobre mecanismos de "terapia" Perspectivas. A seção 5 indica possibilidades de implementação do acompanhamento a longo prazo ("seguimento"). Finalmente, a seção 6 enumera algumas perguntas a serem respondidas para dar início ao tratamento e a seção 7 traz agradecimentos e a pergunta final.

2. A Agenda para a Computação e o Modelo Médico de Avaliação

A definição de uma agenda para P & D em qualquer área precisa necessariamente passar por um diagnóstico da situação, planejamento da ação e avaliação dos resultados. De fato, o processo como um todo pode ser analisado sob o prisma do tratamento de um paciente, que passa por várias etapas:

No caso deste trabalho, o "paciente" que deve sofrer anamnese é a P & D em Computação no Brasil. Até bem recentemente, todas as iniciativas vinham sendo desenvolvidos de forma isolada, em geral sem coordenação global, com acompanhamento pouco claro e nenhum seguimento. Embora vários resultados de altíssimo nível venham sendo conseguidos, a falta de uma agenda global e de um planejamento adequado vêm acarretando duplicação e pulverização de esforços e, consequentemente, desperdício de recursos de uma forma geral.

Note-se que "paciente" não é sinônimo de "doente", mas apenas de alguém que é analisado por um especialista. Assim, embora não se possa chegar ao ponto de dizer que a P & D em Computação no Brasil esteja "doente", a falta de metodologia de anamnese e de terapia adequadas está se fazendo sentir. Os recursos disponíveis estão cada vez mais escassos ao mesmo tempo que comunidade científica em Computação está aumentando. Isto se tornará cada vez mais grave, face à concorrência que temos que enfrentar em um mundo que tende à globalização de esforços e à competição em escala internacional. O aumento na nossa massa de pesquisadores é um fator crucial para garantir evolução sustentada de P & D, mas não é suficiente.

Voltando à analogia paciente-terapia, temos um DIAGNOSTICO que indica ser preciso crescimento em P & D. Surge daí a necessidade de planejar soluções (TRATAR) para tal problema. O processo de sustentação de P & D deve ser encarado sob o prisma de um "tratamento continuado", com acompanhamento constante e avaliação permanente. O TRATAMENTO corresponde a executar planos de projetos concebidos segundo dimensões diferentes:

Cada uma destas dimensões se refere a um "paciente" com maior ou menor número de problemas, e cujo acompanhamento tem duração e características diferenciadas. A AVALIACAO deve começar antes do planejamento, prosseguir ao longo do tratamento e continuar após o seu término. Neste contexto se pode aplicar o modelo de avaliação usado em educação denominado "modelo de avaliação médica", que engloba quatro etapas principais:

Na Computação brasileira, existem exemplos de programas pioneiros para uma agenda de P & D que usam parcialmente o modelo médico de avaliação. Um destes é o programa de pós-graduação, que há décadas vem promovendo a formação de recursos humanos de alto nível, através de bolsas e de apoio a cursos de pós-graduação. Este programa, no entanto, não é exclusivo da Computação. Além disso, como mostra um estudo recente da Comissão de Coordenadores de Pós-graduação em Computação, é necessário rever os rumos deste programa, para nossa área, de forma a atender a crescente demanda social e nos permitir competir no mercado global. Em outras palavras, este é um exemplo em que há necessidade de um acompanhamento continuado que vise aperfeiçoar um programa de forma a permitir tratamento diferenciado (da Computação).

Talvez o primeiro esforço de fôlego que possa ser realmente cotejado com o modelo médico seja o programa ProTeM-CC. A partir de um diagnóstico inicial das necessidades da pesquisa em Computação no Brasil, foi lançado um primeiro edital, sucedido por dois outros. As diferenças entre os sucessivos editais mostram que houve uma mistura de avaliações formativa (do programa global) e de seguimento (dos resultados dos projetos dos ProTeM I e II), pois cada novo edital vem levando em consideração os erros e acertos das versões anteriores. Os resultados do ProTeM I realimentaram a versão II e esta forneceu subsídios para a terceira versão de chamada de projetos. É interessante também notar que cada edital ProTeM-CC usou não apenas os resultados da avaliação conclusiva da versão anterior, mas também outros tipos de "feedback" (como, por exemplo, dos projetos ESPRIT). Isto corresponde às avaliações formativa e de seguimento, no sentido de que resultados de "terapias" em outros locais (países) são usados para aperfeiçoar o processo de tratamento como um todo. Ressalte-se também que outros programas (por exemplo, Genesis) estão sendo criados, mostrando empenho em responder às necessidades detectadas tanto por parte da comunidade de P & D em Computação, quanto pela sociedade como um todo.

O ProTeM-CC revolucionou o andamento da P & D em Computação no Brasil. Esta revolução se deu principalmente em dois sentidos:

Não podemos, no entanto, nos contentar em aceitar este modelo. Para garantir nossa competitividade e maximizar a utilização de recursos, precisamos nos perguntar como podemos contribuir para nosso progresso. Que tipos de programas e linhas de atuação devemos incentivar? As três seções que se seguem analisam algumas possibilidades, usando exemplos brasileiros e estrangeiros de "diagnóstico", "tratamento" e "avaliação" de políticas, programas e projetos de P & D em Computação.

3. Anamnese e Diagnóstico

O diagnóstico é precedido da anamnese, através da qual o médico, usando levantamento de dados, define a linha de atuação. No nosso caso, a anamnese corresponde a executar diferentes procedimentos para determinar direções para P & D em Computação.

Que processos e que mecanismos devem ser usados no levantamento destes dados? As principais formas adotadas mundialmente são de dois tipos: workshops e congressos científicos, para determinar linhas de atuação em um domínio específico; e reuniões de trabalho envolvendo especialistas em Computação e membros da sociedade, para traçar políticas mais gerais. Os resultados de tais encontros são publicados de forma a permitir uma ampla discussão e a validação destes resultados por um público mais amplo. Devemos portanto nos preocupar com estas duas dimensões -- a determinação das linhas de atuação e a sua divulgação.

Algumas direções interessantes de atuação podem ser obtidas a partir do exame de grandes programas de governo e de projetos de pesquisa no exterior. As direções de pesquisa e metas são bem definidas, com um cronograma de execução especificado e desembolso garantido. Na América do Norte e na maioria dos países europeus, existe a tradição de programas nacionais ou multinacionais para P & D em Computação, cuja formulação é coordenada pelos diferentes orgãos governamentais de fomento à pesquisa (por exemplo, o NSF nos EUA ou o CNRS na França). Em um nível mais abrangente,os projetos ESPRIT exemplificam a evolução do nível de cooperação multinacional entre pesquisadores para atendimento a parceiros industriais.

O paralelo a ser traçado no Brasil são os programas nacionais ProTeM e RNP, que vêm sendo aperfeiçoados através de consulta à comunidade científica. Ressalte-se que as coordenações destes programas vêm participando há vários anos dos eventos da SBC, como forma de maior interação com a comunidade de pesquisa. Neste sentido, o Congresso anual da SBC tem sido fundamental para permitir maior divulgação dos programas nacionais de P & D e facilitar seu aprimoramento. Se, por um lado, política e programas partem de modelos internacionalmente bem sucedidos, há problemas na sua execução, um dos quais, não desprezível, é a irregularidade no desembolso.

De fato, qualquer agenda de P & D que elaborarmos deve levar também em consideração esta irregularidade e determinar formas alternativas de sustentar o financiamento. De novo, uma iniciativa inovadora foi a lei 8248, cuja concepção deveria servir de estímulo a outras propostas de mesmo cunho. O término da validade desta lei não parece estar causando a comoção que merece. Esta (aparente) apatia é outro problema sério para a execução da agenda.

Os programas das agências governamentais se situam no nível global. Em outro nível, de novo no exterior, diferentes grupos de interesse costumam se reunir para definir metas e programas que permitam alavancar linhas de pesquisa definidas como relevantes. Estas reuniões, em geral realizadas em um âmbito nacional, são organizadas sob a forma de workshops, tendo como objetivo principal o levantamento de dados para determinar e redirecionar a pesquisa em uma área. O resultado de tais reuniões é publicado de forma a atingir uma parcela considerável da comunidade científica, buscando não apenas feedback mas também chamar a atenção da comunidade de Computação para problemas em aberto e áreas onde exista carência de resultados. Assim, um relatório de um workshop para direcionar pesquisa em uma área, pode, inclusive, influenciar rumos de trabalhos em outras áreas.

Exemplos recentes são o workshop sobre visualização científica (1), e relatórios sobre linhas de pesquisa em bancos de dados (2, para a comunidade internacional, e 3, exclusivamente para a França). Estas reuniões são organizadas pelos próprios grupos de interesse ou pelas Sociedades de Computação do país e atuam principalmente nos níveis intermediário e básico de tratamento.

Este segundo tipo de iniciativa não tem paralelo no Brasil. Apesar da SBC já ter mais de 12 simposia anuais regulares, o que demonstra grupos de interesse muito ativos, ainda não houve tentativa de promover reuniões cujo objetivo único fosse detectar tendências nacionais e mundiais (anamnese) de forma a definir o direcionamento e a organização de linhas de pesquisa na área (diagnóstico e tratamento). Temos, portanto, no Brasil, um quadro em que já existem iniciativas no nível global, mas não nos níveis inferiores. Isto dificulta o aperfeiçoamento dos programas globais brasileiros por falta de maior sintonia com os níveis intermediário e básico.

Novas necessidades de P & D em Computação vêm surgindo, alavancadas pelo surgimento de novas disciplinas e, principalmente, pelo aparecimento de frentes de pesquisa que exigem esforço cooperativo multidisciplinar. Desta forma, para responder adequadamente às iniciativas dos programas globais, nossa resposta precisa ser não apenas participar ativamente destes programas, mas organizar reuniões onde se possa fornecer subsídios ao aperfeiçoamento de tais programas. Usando o exemplo do ProTeM-CC, comenta-se sobre casos em que pesquisadores reclamaram a ausência, em editais, de determinadas linhas de pesquisa. Quem são os reais responsáveis por tal omissão -- os elaboradores dos editais, ou os grupos de interesse da SBC, que deveriam promover a anamnese das suas áreas de forma a indicar claramente quais as direçoes a serem seguidas?

Em outras palavras, a análise da Situação parece demonstrar que nós, comunidade científica de Computação, estamos tendo um papel principalmente reativo, quando as perspectivas mundiais exigem uma participação proativa.

O levantamento destas necessidades deve envolver não apenas a comunidade científica de Computação, mas também os beneficiados pelos seus projetos (a sociedade como um todo). Existe, ainda, nesta anamnese, um problema a ser considerado, que é específico da Computação. Computadores e software são usados hoje em dia de forma corriqueira, para resolver problemas em todos os domínios do conhecimento. Isto significa que cada vez mais pesquisadores de todas as áreas consideram que desenvolvem pesquisa em Computação, quando na verdade apenas estão utilizando computadores para solução de seus problemas. A identificação de linhas de atuação para uma agenda de P & D em Computação deve ter o cuidado de não incluir este tipo de atuação, mas ao mesmo tempo considerar a necessidade de integrar a pesquisa pura à aplicada.

4. Tratamento

O planejamento de uma agenda brasileira de P & D em Computação deve dar prioridade a atuações a longo e médio prazo, tendo em vista que iniciativas a curto prazo vêm sendo conduzidas com sucesso por projetos individuais ou integrados de pesquisa. Este planejamento precisa considerar não apenas tendências mundiais mas também necessidades específicas nacionais. Soluções inovadoras para problemas específicos brasileiros podem trazer avanços para necessidades mundiais.

As tendências mundiais apontam para uma crescente competição internacional, dada a globalização da economia. O aumento exponencial na quantidade de dados disponíveis em rede não está sendo acompanhado por um avanço correspondente na organização consistente desses dados e na obtenção de informação. Qualquer projeto de longo alcance deve buscar facilitar o acesso a tais dados, incluindo desenvolvimento de ferramentas adequadas de consulta e navegação e novas formas de armazenamento. Outra tendência clara no mundo são as alianças multinacionais estratégicas para desenvolvimento de tecnologia de ponta. Assim, planos de ação precisam promover cooperação e intercâmbio em vários níveis. Devemos, além disto, incentivar a cooperação não apenas multi-institucional, mas também multidisciplinar.

A busca da QUALIDADE NA PESQUISA deve começar pela garantia da QUALIDADE DOS DADOS utilizados. A garantia da qualidade de dados passa necessáriamente por técnicas de tratamento de erros e validação. Outra dimensão a ser buscada é a Segurança dos dados, evitando sua destruição acidental ou proposital, ou acesso indevido. Isto exige, por sua vez, desenvolvimento em novas técnicas de proteção e, além do mais, auditoria. A garantia de qualidade e integridade dos dados deve ser considerada como uma das linhas prioritárias de pesquisa em Computação, exatamente por permitir assegurar a base do resto da pesquisa.

Aliada à globalização, nota-se que as áreas de atuação da Computação estão ficando ao mesmo tempo mais abrangentes e mais especializadas. Qualquer área de pesquisa está hoje subdividida em linhas especializadas, com o risco de se tornarem estanques se não houver esforço concertado em romper tais barreiras. As necessidades tecnológicas exigem especialização e verticalização do conhecimento, o que acarreta estreitamento dos horizontes. A pesquisa em bancos de dados ou em redes de computadores, para citar apenas duas grandes áreas, está hoje tão diversificada que é impossível a um especialista acompanhar e entender os resultados em todas as frentes e suas implicações.

Na área de bancos de dados, por exemplo, há hoje especialistas em estruturas de dados que não têm tempo para discutir com os especialistas em otimização de consultas, os quais desconhecem os especialistas em técnicas de armazenamento, que por sua vez não trabalham com os especialistas em processamento de transações, todos ignorando solenemente os especialistas em modelagem, e assim por diante.

Não só é complicado acompanhar todas as frentes de pesquisa em uma área, mas muitos resultados são obtidos por contribuições advindas de outras áreas. Pesquisadores que hoje publicam nas melhores revistas e congressos em bancos de dados são não apenas aqueles que fizeram sua carreira na área, mas também os originários de teoria da computação (trabalhos emmcriptografia, algoritmos de compactação, estruturas de dados), redes/arquitetura (soluções para transmissão de dados e processamento de dados multimeios) ou inteligência artificial (uso de bases de conhecimento e bancos de dados dedutivos). Isso significa que trabalhar em bancos de dados de forma eficiente exige cooperação com especialistas de outras áreas da Computação.

O reverso da moeda também é verdade -- há um crescente número de pesquisas inovadoras em bancos de dados que vêm contribuindo para o progresso de outras áreas. Exemplos de impacto deste tipo podem ser encontrados na área de redes (comércio eletrônico, bibliotecas digitais) e, naturalmente, em qualquer domínio do conhecimento cuja pesquisa envolva gerenciamento de grandes volumes de dados -- como é o caso, por exemplo, de "data mining" em inteligência artificial, ou gerenciamento de dados em ambientes CASE na engenharia de software.

Finalmente, devido às perspectivas atuais de coleta e armazenamento de dados heterogêneos, tem havido um aumento progressivo em pesquisas voltadas à solução de problemas de um domínio de aplicação (sistemas biomédicos, geográficos, navegação terrestre ou marítima, planejamento ambiental) que são desenvolvidas em parceria de especialistas de bancos de dados e do domínio da aplicação. Em suma, o progresso na área de bancos de dados exige cooperação entre as diferentes especialidades da área e de outras áreas, sendo validado pelos resultados obtidos em um domínio específico.

Seria a área de bancos de dados a única a exigir este entrelaçamento? é claro que não. Em outras palavras, o planejamento do tratamento deve considerar obrigatoriamente trabalho cooperativo para quebrar barreiras de especialização e permitir somar esforços. Esta cooperação pode ser exercida segundo duas dimensões:

O planejamento deste tipo é necessariamente mais complexo, por envolver especialistas cuja cultura de trabalho é distinta, mesmo que todos originários de uma única instituição.

Exemplos de novas áreas multidisciplinares que exigem cooperação horizontal em Computação (e, além disso, em outros domínios ) são projetos em Astronomia, Medicina, Biotecnologia, Transportes, Geoprocessamento. Todos têm necessidade, por exemplo, de soluções inovadoras em bancos de dados, análise e construção de algoritmos, otimização, linguagens, computação gráfica, engenharia de software e técnicas de inteligência artificial (para citar apenas alguns dos grupos de interesse mais ativos na SBC). Além disso, considerando o fato de que qualquer trabalho científico atualmente está fortemente calcado em redes, estes novos domínios motivam pesquisa na área.

Ressalte-se ainda que um problema em pesquisa aplicada frequentemente ignorado por cientistas da Computação é a necessidade de conhecer o vocabulário e peculiaridades de trabalho de outros cientistas. Sem este conhecimento, é impossível entender os problemas importantes a solucionar e, além do mais, conseguir convencê-los sobre a relevância de nossa contribuição. Este tipo de conhecimento exige um investimento a longo prazo, que deve ser embutido no planejamento. Desta forma, deve ser permitido que, em um projeto de longo alcance, constem explicitamente atividades de treinamento intensivo em tópicos que nada têm a ver com Computação (por exemplo, auditoria ou biologia).

Um exemplo de impactos entre linhas de pesquisa é o trabalho em visualização científica, que hoje em dia fornece subsídios importantes para diferentes áreas do conhecimento, que vão desde as ciências naturais até a matemática pura. Combina resultados de análise de algoritmos, computação gráfica, projeto de interfaces e cognição (pois não se trata apenas de apresentar dados como num livro, mas permitir outros tipos de interação com os dados apresentados).

Outro exemplo que merece ser encarado sob vários prismas é o que se refere à educação à distância. Ao contrário do que vem sendo discutido na mídia, não se trata simplesmente de combinar novos paradigmas em educação com tecnologia de satélites e redes de computadores. O sucesso deste tipo de programa exige que os alunos tenham acesso remoto a diferentes tipos de dados e, além disso, o esquema de atendimento extra-classe, e a avaliação e remuneração precisam ser repensadas. Além de especialistas em educação e cognição, este tipo de trabalho exige combinar pesquisa de ponta em redes, bancos de dados, sistemas multimeios, inteligência artificial e... cobrança eletrônica.

Ao leitor interessado em áreas estratégicas multidisciplinares de pesquisa horizontal em Computação sugere-se por exemplo a leitura das revistas IEEE Spectrum de janeiro de 1996, Communications of the ACM de junho de 1996 e (para bancos de dados) JBCS de abril de 1996. A condução de um programa de longo prazo para bibliotecas eletrônicas é discutida em (4).

Finalmente, necessidades reais de pesquisa são movidas não apenas por "high-tech". Um exemplo é a automatização de redes de lojas. Esta automatização tem necessidades reais que poderíamos considerar menos nobres mas com utilidade e impacto em outras áreas. Um dos desafios é o desenvolvimento de novas técnicas de "backup" de arquivos: as técnicas atuais não são adequadas, por causa do volume. distribuição e heterogeneidade dos dados, além das características de tempo real e da cultura de cada região (por exemplo, perfis de consumidores). O problema de backup de arquivos, de aparência banal, é hoje considerado um problema em aberto, cuja solução trará contribuições importantes para resolver inúmeros outros problemas. Isto mostra que impacto tecnológico pode ser conseguido mesmo para aplicações consideradas tradicionais e tratadas com certo desprezo por nossa comunidade como "aplicações comerciais".

5. Acompanhamento e Seguimento

Estudadas as técnicas de levantamento de dados (anamnese e diagnóstico) e necessidades de planejamento do tratamento, resta determinar como conduzir o processo de avaliação formativa (acompanhamento) e de seguimento. Primeiramente, o acompanhamento e seguimento devem ser especificados antes do início de qualquer projeto. Além disto, devem levar em consideração as diferenças de cultura dos parceiros, até mesmo dentro de uma instituição.

Em Computação utilizamos o sistema de revisão e avaliação pelos pares. Estes realizam tal avaliação analisando os resultados produzidos (protótipos, técnicas, aplicações, produtos) e a inovação conseguida. O que acontece, no entanto, é que o avaliador muitas vezes só toma conhecimento de um projeto na hora de avaliar seus relatórios, sem ter podido planejar critérios e metodologia de acompanhamento por não terem seguido o projeto. Isto seria equivalente a permitir que um médico faça a avaliação de um paciente cujo tratamento não acompanhou. Esta avaliação independente é muito importante, mas não é suficiente.

Outra questão a considerar é o seguimento, ou impacto a longo alcance. Em nossa comunidade, estamos habituados a avaliar projetos a partir dos resultados imediatos reportados (protótipos, patentes, publicações, pessoal formado). Dever-se-ia planejar o seguimento de forma a considerar resultados a longo prazo. Exemplos de itens a verificar seriam o impacto sobre outras pesquisas, como por exemplo geração de sub-projetos ou novos projetos independentes, e o nível de disseminação e utilização dos resultados. Projetos de maior envergadura deveriam também ter impacto mais duradouro, como por exemplo fomentando novas cooperações. Ainda outros dados a considerar no caso brasileiro seriam a possibilidade de transferência de tecnologia, o efeito no mercado da qualificação de recursos humanos.

Este planejamento prévio do acompanhamento do tratamento e, principalmente, do seguimento, estão ausentes do planejamento dos projetos em Computação. Este esquecimento terá efeitos cada vez mais marcantes na qualidade da pesquisa que realizarmos, pois somente com tal tipo de feedback contínuo e prolongado poderemos consertar e dirigir os rumos das prioridades de P & D na Computação brasileira.

6. Conclusões

Este trabalho discutiu alguns pontos que devem ser levados em consideração no planejamento a médio e longo prazo de uma política para crescimento sustentado de P & D em Computação no Brasil, usando a analogia de tratamento médico. A introdução deste texto ressaltou o fato de que esta analogia não tem por objetivo insinuar que a Computação brasileira está doente, mas sim que qualquer agenda deste tipo deve ser elaborada dentro do modelo comprovadamente bem sucedido de diagnóstico, planejamento, acompanhamento e avaliação continuada.

O trabalho também ressaltou vários indicadores positivos do estado atual da Computação no Brasil. Indicou, igualmente, algumas direções que podem ser seguidas para cada etapa considerada (diagnóstico, planejamento/acompanha,mento e avaliação), ressaltando a importância da pesquisa cooperativa como catalisadora de resultados.

Restam, ainda, várias perguntas que só poderão ser respondidas durante a definição da agenda em questão. Os indicadores de progresso mencionados ao longo do texto são indiscutíveis, mas seriam estes os indicadores mais adequados? Qual o papel da SBC no apoio à confecção da agenda e na sua execução?

Um tratamento só é bem sucedido quando há cooperação do paciente. De que forma nós, como comunidade de Computação, podemos cooperar para alavancar nosso trabalho? Como podemos nos transformar de seres reativos em proativos?

O médico deve dar esclarecimentos ao paciente, e a divulgação dos resultados de um tratamento permite aperfeiçoar procedimentos médicos em geral. Como podemos divulgar os resultados de nossas pesquisas e projetos de forma a garantir seu pleno aproveitamento? Como prestar efetivamente contas à comunidade dos avanços obtidos? Como convencê-la de que não moramos em uma torre de marfim (expressão usada no texto que motivou este trabalho)?

As avaliações formativa e conclusiva pressupõem critérios claros e avaliadores independentes e isentos. Quem serão os avaliadores? Em princípio, a avaliação de um trabalho de pesquisa deve ser feita pelos pares, mas muitos resultados da mesma pesquisa podem demandar participação da sociedade beneficiada. Como selecionar estes outros avaliadores? Como garantir a qualidade da avaliação?

Finalmente, devemos ter consciência de que quaisquer política, programa e projeto exigem cooperação maciça de todos os setores envolvidos, para evitar omissões. Há exemplos clássicos de iniciativas de P & D em Computação no exterior que tiveram sua execução prejudicada por falta desta participação. Em muitos casos, a definição de "linha de pesquisa prioritária" foi vista pela comunidade como uma segregação entre pesquisa importante (a ser financiada) versus pesquisa inútil (sem possibilidade de financiamento). Se é verdade que não há por princípio pesquisa inútil, também é verdade que não devemos pulverizar esforços e recursos em uma miríade de linhas e projetos, cujos resultados se perderão exatamente pela sua quantidade e falta de entrosamento.

Todos esses problemas só poderão ser evitados se participarmos ativamente de todo o processo de elaboração e execução da agenda.

7. Agradecimentos e Pergunta Final

Um trabalho que preconiza cooperação precisa obrigatoriamente conter agradecimentos.

Agradeço ao professor Silvio Meira o convite para escrever este texto. Agradeço igualmente ao ProTeM-CC pela oportunidade de participar dos programas ProTeM I e II, o que me permitiu ver com outros olhos a situação e perspectivas da P & D em Computação no Brasil.

Meu trabalho tem sempre recebido apoio do CNPq e da FAPESP. Dependo cada vez mais de colegas e alunos para obter resultados interessantes e relevantes.

Porque é que tantos e tantos artigos publicados por pesquisadores brasileiros não têm um só agradecimento?

(1) Proceedings IEEE Visualization Workshop, Springer Verlag Lecture Notes in Computer Science 871, editores J. Lee e G. Grinstein, 1993.

(2) A. Silberschatz, M. Stonebraker, J. Ullman (eds). Database Research: Achievements and Opportunities into the 21st Century. JBCS, 2(3), 1996

(3) R. Laurini. Programme de Recherche en Bases de Données Géographiques. Revue Internationale de Géomatique, 5(1):83-99, 1995.

(4) B. Schatz e H. Chen. Building Large Scale Digital Libraries. IEEE Computer 29(5):22-35, 1996.


Para ler o comentario de Gilberto Câmara, do INPE, sobre este tema, vá para... http://www.inpe.br/inpe/dpi/secomu96.html