Subject: contribuicao para o SECOMU: Pos-Graduacao
Date: Thu, 18 Jul 1996 14:04:51 -0300
From: "Edmundo A. de Souza e Silva" <edmundo@nce.ufrj.br>
To: "ccmn@di.ufpe.br" <ccmn@di.ufpe.br>
CC: Jose Augusto Suruagy Monteiro <suruagy@di.ufpe.br>

Suruagy e coordenacao do SECOMU,

Abaixo encontram-se alguns comentarios sobre o topico "Pos-Graduacao no Brasil" que sera discutido no SECOMU. Infelizmente, nao houve tempo suficiente para que eu pudesse elaborar um texto mais completo, portanto optei para tocar em alguns topicos e apresentar minhas ideias que, embora estejam um pouco superficiais, acredito estejam claras.

Um abraco, Edmundo

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A receita basica para um bom curso de pos-graduacao e' relativamente "simples": grupo de pesquisadores atuantes a nivel internacional; uma excelente biblioteca, com capacidade de obter artigos num curto espaco de tempo, equipamentos de ultima geracao, ESTABILIDADE de financiamento em pesquisa e claro, os melhores alunos ... Infelizemnte isso requer uma voltade politica grande para reverter o quadro atual de P&D no Pais.

O Brasil fez um esforco louvavel para aumentar a massa critica de pesquisadores, atraves de bolsas de doutorado no Pais. E' evidente o salto de qualidade que houve. Lembro-me que quando aluno nao tinha acesso nem de perto ao material hoje disponivel ao aluno de pos de um bom curso. Portanto, algo mudou nos ultimos 20 anos, embora lentamente, mas teria que mudar muito mais, ou o perdermos o caminho conquistado.

Vim recentemente de uma viagem de pesquisa a Hong Kong. Fiquei IMPRESSIONADO com o enorme investimento nas universidades. Visitei 2 Universidades de primeira linha: a Chinese University of Hong Kong e a Univ of Hong Kong of Science and Technology. E' interessante a comparacao com o Brasil, pois muitos problemas la existentes sao semelhantes ao nosso. Por exemplo, o aluno pos graduado tem dificuldade em arranjar emprego, pois a maioria das firmas nao desenvolve tecnologia. A qualidade do aluno de graduacao ainda nao e' das melhores, pois as grandes mudancas tem ocorrido nos ultimos 6 anos. Alem disso existe o problema de professores antigos, nao atuantes ha muito tempo, mas com posicao estavel e influente nas Universidades.

Entretanto o governo reconheceu que era preciso mudar esse quadro. Foram agressivos em buscar os melhores cerebros chineses nos EUA e Europa, oferecendo condicoes irrecusaveis de trabalho. Encontrei la' varias pessoas que estavam em boas universidades nos EUA, e Europa, em centros de pesquisa como Bell Labs e T.J. Watson... Alem disso existe uma politica igualmente agressiva para contratacao de recem-doutores.

Quais as condicoes oferecidas? Salarios excelentes, infraestrutura de primeirissima qualidade, e grants...

Existe ainda um programa de integracao entre a Universidade e as empresas. Alem de existir o claro reconhecimento da necessidade de se manter pesquisa basica a nivel internacional, existe a preocupacao em apoiar projetos de desenvolvimento com a industria, e consequente absorcao de tecnologia gerada.

Nos 18 dias que estive em Hong Kong nao vi muita diferenca dos dias que passei em Universidades nos EUA, devido ao clima de pesquisa, a qualidade dos laboratorios, etc, etc. Neste periodo vi varios pesquisadores estrangeiros visitando o departamento... Em resumo, o estado geral das universidades e' de "voltade de mudar" o quadro, e essa vontade tem o apoio do governo.

Para terminar uma frase interessante: um professor disse: "Aqui e' o pedacinho mais capitalista do mundo, o governo so' atua em 2 coisas: educacao e saude"!

Passo agora a comentar sobre alguns trechos do documento:

A pos-graduacao deve servir para que o aluno possa aprender a CRIAR e com isso reverter o quadro de sub-desenvolvimento do Pais, depois que ele e' absorvido pelo mercado de trabalho. Nao existe emprego? Esse quadro so' reverte se os proprios alunos passarem a gerar os seus proprios empregos. (Veja exemplo do ITA no passado...) Mas para que isso seja possivel, e' preciso apoio e regularidade de financiamento.

A integracao com a graduacao e' essencial. Nao e' possivel que a pos graduacao seja um "tapa buracos" para os cursos de graduacao. Fazendo uma integracao real, e incentivando os melhores alunos a participar desde cedo em projetos de P&D podemos melhorar significativamente a mao de obra da pos, e diminuir o tempo de mestrado.

Quanto a um exame de avaliacao nacional, acho interessante a ideia, porem e' preciso tomar muito cuidado com a qualidade... Isso poderia dar surgimento a cursinhos especializados em resolver os problemas do exame. Teriamos nao os melhores alunos, mas os melhores solucionadores de problemas do exame. Pode existir um exame geral sim, mas uma avaliacao deve ser acompanhada do historico do alunos, onde o peso do seu curso de graduacao (avaliacao de cursos de graduacao?) deve influir bastante.

Quanto ao doutorado, acho um pouco perigoso existir limites rigidos para o a conclusao do curso, pois pesquisa nao tem hora para concluir. Nao se pode colocar limites de tempo para se ter uma ideia original. Entretanto, uma selecao rigorosa dos melhores alunos, e incentivo para que esses alunos possam produzir, ira diminuir com certeza o tempo de conclusao de uma tese.

Sou favoravel a um exame de qualificacao. Acho que ajuda muito o alunos rever uma serie de conceitos depois de ter terminado os cursos, mesmo que tendo obtido notas excelentes.

Pesquisa Basica e pesquisa "pratica": Ambas devem coexistir, desde que haja qualidade. Uma pesquisa basica/teorica, deve ter algum reconhecimento internacional. E' importante manter a interacao com grupos de pesquisa no exterior e acompanhar o desenvelvimento cientifico de forma a manter o nivel dos cursos de pos-graduacao. Por outro lado, e' igualmente importante atuar nas areas essenciais para o Pais de forma a ajudar no desenvolvimento a mais curto prazo. Neste caso a relevancia da pesquisa se mede em termos do impacto tecnologico para o Pais e interesse industrial/transferencia de tecnologia.

Quanto a formacao de doutores/mestres, concordo que cada vez mais devemos produzir doutores no Pais, mas ANTES temos que assegurar as condicoes necessarias para que se possa produzir excelentes resultados. Isso so' e' possivel com uma melhora na nossa infraestrutura, e financiamento estavel. A bolsa sandwish e' um excelente meio para completar a formacao dos nossos alunos, mas deve-se verificar que existe forte cooperacao entre o pesquisador hospedeiro e o professor orientador no Brasil. Sem isso o aluno pode se distanciar dos objetivos e terminar por jogar fora 1 ano de tese, ou efetivamente trabalhar apenas num projeto de tese no exterior, sem vinculo com a instituicao de origem.

Mas mesmo que ampliemos nossos programas de doutorado local, devemos manter um bom fluxo de alunos com bolsa integral para fazer doutorado no exterior, desde que a selecao de alunos seja rigorosa, assim como excelente a Universidade escolhida. O fluxo de (excelentes) alunos para o exterior, devera garantir um minimo de mao de obra "externa" para nossas Universidades, trazendo ideias de fora para que os nossos cursos possam sempre ser questionados por pessoas "com outra visao" do processo de formacao.

E' preciso tambem garantir que os recem-doutores tenham forte apoio uma vez retornando ao Pais, de maneira a que nao seja "freiado" o seu entusiasmo a pesquisa e possa continuar o contacto externo.

Concordo com a recomendacao de que os trabalhos de pesquisa sejam disponiveis em Ingles de maneira a expor os resultados obtidos a comunidade mundial. Outros Paises ja fazem isso comumente (e.g. Holanda). Isso facilita tambem a cooperacao internacional. Em particular tenho procurado fazer com que os textos produzidos por meus alunos sejam redigidos em Ingles, desde que exista vontade por parte do aluno. Isso tem facilitado enormemente a atrair cooperacao internacional.