Subject: Contribuicao para o SECOMU - Cooperacao Internacional
Date: Tue, 23 Jul 1996 17:25:59 -0300
From: "Edmundo A. de Souza e Silva" <edmundo@nce.ufrj.br>
To: "ccmn@di.ufpe.br" <ccmn@di.ufpe.br>
CC: Jose Augusto Suruagy Monteiro <suruagy@di.ufpe.br>

Esta msg e' uma contribuicao *** INFORMAL *** para
o SECOMU - Cooperacao Internacional.

Edmundo

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As perguntas basicas, conforme mostra o texto sao: Para que cooperar? Como cooperar? Interessa ao Brasil? Vou tentar tocar em alguns pontos destas perguntas atraves da experiencia que tenho adquirido.

Ha mais de 10 anos tenho cooperado com pesquisadores no exterior. Como no meu caso, imagino que a maioria das pessoas comeca a cooperar com o seu orientador, logo apos o doutorado, desde que, e' claro, o relacionamento durante a tese tenha sido muito saudavel. Ja ouvi algumas pessoas questionarem este tipo de cooperacao, alegando que isso mantem uma dependencia de pesquisa do ex-aluno com seu ex-orientador. Nao discordo que isso possa acontecer, mas os beneficios de uma saudavel cooperacao sao maiores que os riscos de dependencia. E' atraves dessa cooperacao inicial que o recem-doutor pode dar mais alguns passos para que resultados provenientes da tese de doutorado possam ser ampliados. Isso abre tambem perspectivas para orientacoes de teses de mestrado locais orientadas pelo recem-doutor em assuntos "de ponta", a nivel internacional. A cooperacao mantem o recem-doutor com um vinculo mais forte com o estado da arte... Vem ai nova pergunta... o vinculo com o estado da arte e' bom para resolver nossos problemas? Vou tentar responder mais tarde essa pergunta.

Voltando a minha experiencia, assim que voltei do EUA onde realizei meu doutorado e logo apos trabalhar no centro de pesquisas da IBM (T.J. Watson), mantive contactos com meu ex-orientador, atraves de programa de cooperacao CNPq/NSF e com um pesquisador da IBM com quem trabalhei durante a minha passagem naquele centro. A forte interacao com esses pesquisadores e o patrocinio CNPq/NSF me manteve "acordado" para a pesquisa, pois um dos pontos que mais senti na minha volta foi o isolamento e falta de massa critica de pessoas para discutir problemas. Essa experiencia certamente fluiu para os meus alunos (de cursos e orientandos) para quem repassava o conhecimento adquirida atraves do contacto com os 2 pesquisadores.

Em resumo, quando ainda recem-doutor, o "para que cooperar" pode ser respondido pela influencia da pesquisa nas minhas aulas/orientacoes, e por me manter atualizado, absorvendo tambem conhecimento dos colaboradores estrangeiros. Com as visitas deles ao Brasil, os alunos locais tiveram a oportunidade de interagir com pessoas externas ao meio academico local e absorver um pouco de outros pontos de vista sobre assuntos de pesquisa.

A medida que a cooperacao avancou, esta abriu espacos para interagir mais com a comunidade internacional, e portanto dando margem ao surgimento de novas interacoes. Esse segundo passo nao ocorreu da noite para o dia, mas depois de uma boa base ja formada. Estou tocando agora com mais detalhes na segunda pergunta de "como cooperar?". A forma mais facil, para iniciar, e' como indiquei acima... se a interacao der certo, e o pesquisador progredir, entao outras cooperacoes deverao surgir naturalmente. E' claro, estou falando de cooperacao entre pesquisadores, e nao cooperacao que surge atraves de programas internacionais.

Voltando a comentar sobre a minha experiencia, a medida que ganhei espaco na minha area, surgiram varias oportunidades de cooperacao, por iniciativas dos pesquisadores estrangeiros. Atualmente desenvolvo um trabalho com o Prof. Ajmone-Marsan da Politecnica de Torino, co-orientando uma aluna de doutorado daquela universidade. Esse trabalho tem influido tambem na minha pesquisa local com meus alunos de doutorado. Outra cooperacao em fase inicial, esta sendo feita com o Prof Grassmann do Canada, e um recem-doutor devera se envolver com o trabalho. Com o Prof. Marie, do INRIA-Rennes, foi iniciado um trabalho, que ja conta com a participacao ativa de um recem-doutor e ja houve a oportunidade de visitas e interacao com alunos.

Recentemente comecei um novo trabalho em conjunto com o Prof. Towsley da Univer. de Massachussets nos EUA e Prof. Lui de Hong Kong. Os contactos ja propiciaram um avanco nos trabalhos de alunos de mestrado e doutorado, e surgiram varias oportunidades de desenvolver outros trabalhos de interesse mutuo.

Em resumo, com o inicio de uma cooperacao patrocinada pelo CNPq e NSF, abriram-se alguns anos depois, varias portas. Cada pesquisa conjunta, influencia a orientacao local e a experiencia adquirida e' passada imediatamente aos alunos. Com os recursos de rede atuais, a cooperacao fornece beneficios maiores ainda, pois permite que os alunos brasileiros comecem a trocar ideias diretamente com alunos do professor estrangeiro envolvido na cooperacao. Essa interacao amplia a experiencia do alunos local, que nao tem os mesmos recursos disponiveis ao aluno do exterior.

A ultima pergunta diz respeito aos beneficios para o Pais. Um beneficio enorme e' prover maior qualificacao para os nossos alunos que e' exposto ao contexto internacional. Os doutorados sandwich surgem tambem, respaldados pela pesquisa conjunta. Mesmo que a pesquisa nao esteja diretamente ligada a um problema nacional especifico, dar melhor formacao aos alunos locais e' por si so' um beneficio grande. Um aluno melhor formado tem mais capacidade de resolver os problemas do seu trabalho, uma vez fora do meio academico.

As dificuldades sao muitas, pois a falta cronica de dinheiro nos coloca sempre em posicao inferior quantos aos recursos disponiveis para as visitas tecnicas. Inumeras vezes a NSF por exemplo, supriu a falta de dinheiro do CNPq, patrocinando totalmente as visitas, inclusive cobrindo a parte do CNPq. Das cooperacoes que mencionei acima, apenas a com meu ex-orientador foi patrocinada pelo acordo NSF/CNPq. Nao obstante, e' essencial que esse programa seja ampliado, com suporte estavel... (essa e' uma frase obvia!).

Edmundo