SECOMU 96: Proposta para Realização

Silvio Meira, DI/UFPE e ProTeM-CC
Coordenador do XXVI SECOMU.


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1. Introdução

O SECOMU 96, em Recife é a XXVI edição do Seminário de Computação na Universidade, evento sempre de grande importância na discussão e planejamento das ações da comunidade científica da área e do seu relacionamento com a sociedade como um todo.

À medida em que se consolida uma Política Nacional de Informática pautada pela Lei 8248 e implementada pelos programas estratégicos do MCT/CNPq e por ações outras do CNPq, CAPES, FINEP e outros órgãos governamentais, a edição do SECOMU 96 se dedicará a avaliar a PNI e os programas estratégicos a ela associados e o papel da SBC e da comunidade científica nos acontecimentos atuais e futuros.

A memória do XXV Seminário sobre Computação na Universidade, o SECOMU 95, realizado em Canela, RS, no período de 31 de julho até 4 de agosto de 1995, por ocasião do XV Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, está disponível para acesso público em http://www.di.ufpe.br/~srlm/secomu96. O XXV SECOMU foi direcionado para a validação do planejamento dos próximos passos do ProTeM-CC, tomando por base as ações realizadas até junho de 1995, na busca de um plano estratégico para o setor de pesquisa e desenvolvimento em informática para o país.

Também foi parte importante do XXV SECOMU a publicação do texto do Prof. David Rosenthal, do Departamento de Economia da UFPE, intitulado Política Nacional de Informática: Os Primeiros Quinze Anos, editado pelo ProTeM-CC, e que representa um balanço significativo dos primeiros quinze anos da Política Nacional de Informática.

O SECOMU 96 dá continuidade às atividades realizadas em 1995 e será composto por 5 grandes painéis e 10 seminários, onde se pretende cobrir os itens da política de informática que são de interesse fundamental da comunidade nacional de informática.

A dinâmica do evento será dada pela realização, cada dia, de um painel e dois seminários. Tanto os painéis como os seminários serão pautados por textos (position papers) previamente publicados pelo apresentador responsável pelo painel ou seminário correspondente. Tais textos serão tornados disponíveis a priori na Internet e abertos ao público antes do evento.

Todos os membros da comunidade serão convidados a submeter comentários e críticas aos documentos e a coordenação do SECOMU convidará, entre aqueles que participarem da análise de cada documento prévio, três debatedores para participar do painel/seminário correspondente, em contraponto ao apresentador.

Estimamos que os documentos preliminares estarão prontos até 20 de junho e abriremos o debate pela rede por outros 20 dias, até 10 de julho, de forma que seja possível identificar os debatedores e providenciar seu transporte e acomodação, por conta do Congresso, para participar do evento em Recife-PE, entre 4 e 9 de Agosto de 1996.

Durante o evento estarão disponíveis, para os participantes inscritos (através da rede) em cada seminário e painel, cópias dos documentos publicados na Internet.

Os anais do evento, devidamente editados com os debates e participações de audiência do SECOMU 96, serão publicados exclusivamente no WWW.

Espera-se que tal participação da comunidade, que consideramos tão ampla quanto é possível dentro das limitações, resulte em um conjunto de recomendações que possa pautar a ação política e institucional da SBC durante os próximos anos e sirva de insumo para as ações do governo e das instituições de ensino e pesquisa em Computação do Brasil.

2. Os Painéis

Estes eventos serão realizados no fim do dia, no Auditório Principal do Congresso e deverão atrair grande e variado público. O formato será de uma apresentação de 30 min. pelo apresentador principal, seguido de até três comentários de até 10 min pelos debatedores, após o que teremos um debate aberto com a audiência por no máximo 1 hora, levando o tempo completo do painel a 2 horas.

Os seguintes painéis e expositores estão programados

    1. A Política Nacional de Informática & Os Programas Prioritários,
      Ivan Moura Campos, Secretário de Política de Informática do MCT.
    2. ProTeM-CC: Resultados e Planos,
      Silvio Lemos Meira, Coordenador Nacional do ProTeM-CC.
    3. Softex 2000, Construindo um caminho para o software brasileiro no mercado internacional,
      Eduardo Moreira da Costa, Diretor de Programas Especiais do CNPq e Coordenador do Softex 2000.
    4. RNP: o que já foi feito, os próximos passos e a comunidade acadêmica como fomentadora e usuária do programa,
      Tadao Takahashi, Coordenador da RNP.
    5. A SBC e a Política Nacional de Informática: o que mais pode ser feito,
      Ricardo Reis, Presidente do SBC.





3. Os Seminários

Usando o mesmo formato dos painéis, os seminários serão dedicados a temas mais específicos, que complementam a discussão suscitada por cada painel ou põem em pauta temas de fundamental importância para a comunidade de computação.

  1. A Graduação em Tecnologias de Informação,
    Ana Carolina Salgado, DI/UFPE e Comissão Organizadora do WEI.

    Realiza-se, também, no Congresso, o WEI, Workshop de Educação em Informática. O objetivo deste seminário é reunir os temas mais candentes em discussão no WEI, de forma que uma audiência mais ampla possa participar do debate lá levantado. Um dos grandes problemas da área, no momento, é a tensão criada pela Comissão de Engenharias do MEC, que teima em estabelecer um currículo para Engenharia da Computação, primando pelo que há de mais retrógrado na área. O objetivo explícito deste seminário será aprofundar o debate sobre currículo e formação da graduação nas áreas de Ciências e Tecnologias da Informação, discutir os diversos tipos de graduação atualmente em andamento no país e compará-los com o cenário e necessidades internacionais e entender mais detalhadamente que tipo de profissional estamos formando e qual o seu papel e função no mercado nacional.

    A SBC deve marcar posição e se estabelecer, definitivamente, como a referência nacional e regional para a discussão das carreiras associadas às Ciências e Tecnologias da Informação, sem o que há a clara possibilidade de oportunistas de tida sorte se intitularem "donos" de variados pedaços da área. Não se trata de criar uma reserva de mercado para a SBC na discussão sobre formação de pessoal na área, mas manter uma atitude aberta, consciente, discutida, determinada, baseada numa discussão ampla e com todas as partes, sejam elas govero, indústria, áreas do conhecimento que detenham algum relacionamento com informação e seu processamento, exatamente para evitar a cartorialização de partes da formação e da profissão, como a Sociedade tão bem está a fazer na última década.
  1. A Pós-Graduação em Ciências e Tecnologias de Informação no Brasil: onde está, para onde vai,
    José Augusto Suruagy Monteiro, DI/UFPE e Comissão dos Coordenadores de Pós-Graduação em Ciência da Computação.

    A pós-graduação brasileira forma hoje 2500 doutores por ano em todas as áreas do conhecimento. Há 1700 cursos de pós-graduação, dos quais 700 são nível A e 4000 bolsistas no exterior. Onde fica a Computação e como se compara o país com o Exterior? Que formação estamos dando, baseada em que pesquisa, como estão mesmo nossos insumos (pesquisadores, alunos, bolsas, laboratórios...) e como se apresenta o futuro? Como anda a integração graduação e pós-graduação e como vão as bolsas e os bolsistas de iniciação científica? Qual é mesmo nosso problema de bolsas e quais são as possibilidades de financiamento fora do(s) sistema(s) oficial(is)?

    A área de Computação é bem recente no Brasil e os programas pioneiros de pós-graduação ainda não chegaram aos trinta anos. Ao mesmo tempo, para que a área possa vir a ter um impacto social de porte, é preciso que o número de titulados aumente significativamente, saindo dos atuais 30 doutores e 200 mestres por ano para números pelo menos 5 vezes maiores. Como fazer isso com o sistema de bolsas estrangulado e de tal forma que a qualidade da formação aumente ao invés de diminuir? Que papel teriam, os acordos de cooperação internacional para um projeto deste porte? Até que ponto os recursos atualmente sendo investidos na formação de pessoal no exterior deveriam ou poderiam ser investidos internamente e em que sub-áreas o sistema teria hoje confiança de poder oferecer uma formação de nível indubitavelmente internacional?

    Devemos discutir também o sistema de créditos, a qualificação e a qualidade, a quantidade das dissertações e teses, as diferenças e desequilíbrios regionais e o papel da pós-graduação no desenvolvimento sustentado do país, a demanda e oferta espontânea de áreas e temas de pesquisa versus aquela induzida pelos programas prioritários e indústria e finalmente, o "projeto CAPES" de avaliação (inclusive da avaliação) da Capes e o papel da pós-graduação no desenvolvimento nacional.
  1. O papel da Cooperação Internacional para as Tecnologias da Informação no Brasil,
    Rosa Viccari, II/UFRGS e ProTeM-CC

    Em um planeta onde o dinheiro e a informação não têm pátria, e onde o regionalismo, uma versão mais localizada do internacionalismo, ao invés de criar um superestado que substitui os governos nacionais, cria agências regionais que neutralizam o governo nacional em áreas importantes, tornando-o quase irrelevante, como tratar o conhecimento, a pesquisa e o desenvolvimento nestas novas formas de "governo"?

    Em economias modernas, baseadas em conhecimento, serão necessárias economias grandes o suficiente para estabelecer, em seu âmago, um livre comércio de porte e uma concorrência de peso. As novas indústrias de alta tecnologia, reza a moderna teoria econômica, precisam de um alto grau de proteção para que se desenvolvam plenamente, pois não seguem as equações econômicas de oferta e procura. Na indústria high-tech, os custos de produção caem muito depressa com o volume da demanda, ao invés de subir, o que leva tal tipo de indústria, uma vez estabelecido, e destruir, sem retorno, sua concorrência. Mas a indústria high-tech precisa de desafios e concorrência maiores do que um estado de porte médio pode oferecer, ao contrário se tornará monopolista e preguiçosa; no caso da indústria de software do Brasil, por exemplo, através do Softex 2000, o mercado e a concorrência foram definidos como, pura e simplesmente, "o mundo".

    Em suma, as tensões provocadas pelo esquema definido no parágrafo anterior estão levando a um mecanismo internacional de negócios baseado em uma efetiva capacidade de proteger a indústria, ao mesmo tempo em que a reciprocidade das trocas substitui o livre comércio e a proteção (seletiva) de mercados. Isso torna o regionalismo inevitável e irreversível.

    Assumindo que a pesquisa e o desenvolvimento em áreas-chave como tecnologias da informação desaguam em indústria high-tech na nossa área, como definir uma política de cooperação internacional para a pesquisa brasileira nos próximos anos? Sabe-se que a maior parte da cooperação internacional em pesquisa e desenvolvimento brasileiros, nas últimas décadas, não passa de mero atrelamento de (grupos de) pesquisadores brasileiros a programas de P&D dos países (principalmente) do G7, que fazem mímica, no país, com os parcos recursos disponíveis servindo a objetivos industriais, estratégicos e políticos totalmente ou em grande parte isolados de qualquer política industrial nacional ou regional ou de necessidades da sociedade brasileira a curto, médio ou longo prazos.

    A área de Informática, no entanto, tem uma política industrial ativa; qual o papel da cooperação internacional ou regional, mais explicitamente, para consecução dos objetivos desta política? A internacionalização da pesquisa e formação de pessoal no Brasil e a integração regional com o Mercosul e países latino-americanos é ou não, afinal, um dos objetivos a ser atingido? Como fazer com que os programas brasileiros de pós-graduação possam ultrapassar a barreira do pré-conceito, muitas vezes elaborado pelos próprios professores de tais programas, que (principalmente o doutorado no país) são cursos de "segunda-classe"? O que falta para que a comunidade de pesquisa brasileira tenha maior inserção internacional, não só publicando artigos nas revistas, jornais e congressos "certos", mas gerando resultados que possam ser transformados em divisas para o País? Quais são as vantagens, problemas e oportunidades que temos que tratar e em que prazos? Será que a cooperação, como tratada hoje, com fins "puramente científicos", tem gerado resultados reais para o país, ou é simplesmente uma válvula de escape para os problemas endêmicos de se realizar pesquisa em um país cartorial, do terceiro-mundo, com uma exagerada tendência de investir na direção errada, ou seja, de gastar muito dinheiro com áreas da ciência que, ao invés de criar possibilidades de gerar recursos, ampliam ainda mais a necessidade de gastar dinheiro? Que papel, neste cenário, têm os projetos cooperativos nacionais e internacionais e o envolvimento empresarial e em que casos isto tem sido possível?
  1. Empreendimento e Interação Universidade-Empresa,
    Fábio Silva, DI/UFPE & Genesis/Softex-2000

    A Universidade e os pesquisadores vêm sendo chamados, cada vez mais, a assumir um papel empreendedor e de gerador de iniciativas, em parte para suprir o vácuo outrora existente na interface com a sociedade e também para formar estudantes com uma mentalidade empreendedora, capazes de criar, desenvolver e manter as estruturas econômico-sócio-industrial reclamadas pela sociedade.

    E a Instituição não pode fugir à sua responsabilidade de guia intelectual e verdadeiro faroal para o desenvolvimento econômico, social, cultural e industrial do país, já que nela residem os homens e mulheres capazes de propor, prototipar e gerar os vetores básicos das mudanças sociais de que o Brasil precisa.

    Mas o problema não se resolve com a decisão de fazer algo, pois há muitos desafios: como compatibilizar, por exemplo, a necessidade de um envolvimento cada vez maior em iniciativas (semi-)empresariais com os processos clássicos de produção associados a um pesquisador e avaliado, no Brasil, segundo uma ótica puramente, poderíamos dizer, romântica de ciência dita "pura"? O paradoxo da participação na Sociedade afasta, sistematicamente, os pesquisadores mais jovens e, pior, rotula sistematicamente os mais maduros, que tentam de uma ou outra forma atacar o problema, de velhos, inúteis e improdutivos.

    Quais são os incentivos -que temos ou temos que vir a ter-, as penalidades, as limitações estruturais e conjunturais para que os professores e pesquisadores se tornem verdadeiros empreendedores no sentido amplo, levando o impacto de suas iniciativas aos currículos, à sua relação com os alunos e outros docentes e com as instituições que os empregam e financiam e determinam a política científica e tecnológica do país? Onde ficam, neste âmbito quase pessoal e, de forma mais geral, os esforços associados aos parques de C&T, incubadoras, geração de spin-offs e joint-ventures de C&T e o papel das fundações e ONG´s de C&T como participantes e também intermediários do processo?

    Como, fundamentalmente, a Universidade vai deixar de preparar as pessoas para viver no extinto megaestado cartorial dos grandes monopólios estatais protegidos por reservas de mercado e preparar cidadãos do mundo, capazes de, sem perder suas raízes étnicas e culturais, de competir num mundo interligado, globalizado e baseado em conhecimento e competência?
  1. Carreiras Acadêmica e de Pesquisa: estamos prontos para uma ampla discussão?
    Pedro Silveira, NCE/UFRJ.

    A vasta maioria dos pesquisadores brasileiros está empregada nas IES estatais, com uma concentração, entre estas, no setor federal. O Regime Jurídico Único e a isonomia são, hoje, claros impecilhos para o estabelecimento de uma carreira acadêmica atrativa e que possibilite um desenvolvimento sustentado para a área de computação a médio e longo prazos. Um dos grandes problemas atuais da carreira é o fato de que todos os pesquisadores com doutorado são professores adjuntos e virtuais candidatos a professor titular em qualquer departamento onde um concurso seja aberto, com consequências políticas, de relacionamento, administrativas e científicas muito sérias. A interpretação do regime de dedicação exclusiva é variada e, enquanto certas instituições fomentam o envolvimento de seus pesquisadores com atividades de extensão e cooperação industrial, outras fazem vista grossa e outras, ainda, combatem (às vezes seletivamente) aqueles que desenvolvem tais atividades.

    A Universidade brasileira está presa em uma camisa de força atada por nós que vão desde sua denodada incompetência -pois que é inegável que a competência reside em bolsões ao invés de se espalhar no sistema, até a pura e simples irresponsabilidade, gerada por mecanismos nacionais de gerência e cobrança que entregam recursos sem destino e sem retorno, passando pelo seu custo relativo frente às outras necessidades educacionais do País e um corporativismo institucional e de grupo que tenta justificar tudo, a qualquer custo. Sem falar na aposentadoria especial, na contratação de auxiliares de ensino que passam de 6 a 10 anos de sua vida funcional cursando mestrado e doutorado, e por aí vai.

    Dentro de tal contexto, quais seriam os possíveis impactos de autonomia universitária e como tais ameaças e problemas poderiam ser transformados efetivas oportunidades para se redesenhar o papel dos professores e pesquisadores e a carreira acadêmica no Brasil? Qual o papel dos órgãos de fomento? Qual o papel da inciativa privada, tanto como empregador direto de professores e pesquisadores como quanto provedor de recursos para o estabelecimento de "chairs" e centros de pesquisa dedicados a certos temas ou problemas?
  1. Planejamento e Administração Institucional: pré-condição para um desenvolvimento sustentado da área,
    Luis Afonso Bermúdez, CDT/UnB

    Devido a problemas de saúde do Prof. Bermúdez, este Seminário e o texto correspondente foram, infelizmente, cancelados. Lamentamos muito, mas não foi possível, devido à exigüidade do tempo, contratar outro líder para este Seminário.

    Quase a totalidade dos departamentos acadêmicos brasileiros desconhecem dados considerados básicos em qualquer empreendimento como, por exemplo, quanto se gasta anualmente com pessoal ou manutenção. Muitos dos chefes de departamento e coordenadores de curso são literalmente "laçados" para o que é considerado "um serviço militar" na administração, não tendo formação ou vocação para o cargo a não ser às vezes, a incapacidade de recusá-lo.

    Em outros casos, grupos políticos se assenhoram de postos administrativos para benefício próprio ou em função de intrigas românticas e/ou hormonais, com as consequências que todos conhecemos. Departamentos cindem por causa de intrigas pessoais, cursos e projetos desconhecem completamente a demanda da sociedade e não se ouviu falar, na maioria das instituições, do conceito de relevância.

    Em suma, falta profissionalismo. É fundamental que os grupos e departamentos assumam seu tamanho, importância e custo para o país e passem a tratar o negócio da ciência da computação com a seriedade e competência que é merecida. Obviamente, isso não é simples e um número de problemas tem que ser resolvido antes: Qual é mesmo o negócio representado por um Departamento? O que faz e/ou deveria fazer, para quem, por que? A que custo? Dentro de que tipo de conjuntura/estrutura é possível dar um tratamento profissional ao planejamento e administração de grupos, cursos e departamentos? Como e começando por onde?

    [Veja a contribuição de Angela C. F. Gomes, da Escola de Governo da Unicamp.]
  1. CACC & CAPES: a história, o estado e o futuro.
    Tomasz Kowaltowski, II/UNICAMP e CACC com Clésio Saraiva dos Santos, II/UFRGS.

    O papel do CACC, através dos tempos tem oscilado entre um caráter propositivo e outro, muito mais frequente, de puro e simples consultor técnico do CNPq. O CNPq, por outro lado, também oscilou, nos últimos anos, mudando cada vez mais seu papel na direção do desenvolvimento tecnológico e dos programas estratégicos, temáticos e especiais, de tal forma que se pergunta, hoje, qual é mesmo o papel de um CA. Noutras eras, foi o CACC quem sustentou a RNP, propôs, iniciou e financiou o ProTeM e deu guarida, por exemplo, ao Projeto Portinari.

    Ao mesmo tempo, o modelo atual de funcionamento dos CAs tem gerado farta insatisfação em cada comunidade e entre comunidades, variando de acusações de corporativismo, imobilismo e perseguições pessoais até uma guerra de posições entre CAs pelos escassos recursos disponíveis.

    Na CAPES, onde a responsabilidade pelos afazeres de uma área repousa em um único indivíduo, comissões ad-hoc são montadas para tratar de dois problemas: a concessão de bolsas individuais e a avaliação dos programas de pós-graduação. Durante muito tempo foi possível manter uma interface entre os dois sistemas, informalmente, através de pesquisadores que participavam de ambos.

    Se os sistemas pudessem se articular e entre eles com a SBC e os programas prioritários em informática, talvez fosse possível definir melhor uma política acadêmica que atendesse os interesses diversos representados pelo DESI, programas de pós-graduação, graduação e extensão e cooperação universidade empresa.

    Numa comunidade como computação, cujo tamanho em número de pesquisadores foi multiplicado por mais de 10 na última década, uma presença política forte tanto no MEC quanto no MCT é fundamental para o desenvolvimento sustentado e harmônico da área, de forma a realizar plenamente o impacto social que é dele esperado.

    O problema é em que bases estabelecer tais interfaces, em torno de que políticas, objetivos e metas e como prover interfaces para que a comunidade possa participar mais efetivamente da definição e implementação do processo.
  1. Autonomia Universitária e o futuro das IES,
    Paulo Cunha, DI/UFPE, Propesq/UFPE e vice-presidente da SBC.

    Neste seminário, de caráter mais amplo que a área de computação propriamente dita, será discutido o processo de autonomia universitária em gestação no governo federal, em relação às universidades federais. Deve ser analisado, por exemplo, o efeito do processo paulista até agora e quais suas possíveis consequências a longo prazo. Qual é o cenário internacional e sobre que modelos de universidades está baseado o projeto brasileiro, se é que há algum, de autonomia universitária?

    É preciso que se considere -e se prepare a discussão- de um programa de autonomia que possibilite um trabalho cada vez mais efetivo das universidades na geração e transferência do conhecimento e formação de pessoal altamente qualificado. Aqui também deve se considerar a profissionalização dos quadros de gestão universitária, sem o que o "negócio" autônomo representado por uma IES tem poucas chances de sobreviver, bem como os possíveis modelos segundo os quais a distribuição inicial de recursos para o sistema vai ser realizado, sem o que serão perpetuadas diferenças regionais que comprometem o processo de desenvolvimento sustentado do país.

    Ainda mais, é preciso que se entenda, em detalhe, o problema econômico e administrativo representado pelas IES: a tríade ensino-pesquisa-desenvolvimento pode ser um negócio auto-sustentado, e em que termos? Que tipo de envolvimento do governo federal é necessário, como regulador, provedor ou executor do serviço?
  1. Pesquisa e Desenvolvimento em Computação: Situação e Perspectivas.
    Cláudia Bauzer Medeiros, II/UNICAMP e editora do JBCS.

    Nos últimos anos, do ponto de vista do financiamento federal para pesquisa na área de computação, os programas prioritários em informática -Softex, ProTeM e RNP- definiram de fato as prioridades de pesquisa, investindo na devida proporção nos temas e problemas considerados mais relevantes em cada um dos programas.

    No caso do ProTeM, mais especificamente, prioridades estratégicas de pesquisa e desenvolvimento foram definidas na "Formação de Recursos Humanos, Pesquisa e Desenvolvimento: bases para uma política nacional de informática" e nos temas prioritários assim definidos nos editais das fases 2 e 3 do programa. Historicamente, a direção da pesquisa brasileira, em qualquer área, tem sido o resultado -nem sempre positivo- da soma das direções individuais que cada pesquisador, ao sabor dos ventos e modas internacionais, decide dar à sua própria atividade.

    Ao mesmo tempo não é difícil se ouvir que "a pesquisa feita na universidade é irrelevante" ou que os cientistas moram em uma "torre de marfim"; do lado de cá, diz-se que "a sociedade não está interessada no meu trabalho" e que "depois de pronto o projeto, nenhuma indústria se interessou por ele" ou que a "sociedade não está preparada para o meu trabalho". A ingenuidade dos lados representados por tais asserções, neste caso, mostra não só a dificuldade de relacionamento entre o setor de pesquisa e desenvolvimento, a indústria em particular e a sociedade de forma mais geral mas a falta de uma agenda de P&D que seja interessante para os dados, o que é certamente difícil, mas não impossível de negociar.

    A pesquisa e desenvolvimento brasileiros que continuarem caudatários e simples seguidores das tendências mundiais continuarão irrelevantes. Por outro lado, experiências como as da Embrapa e Petrobrás mostram que é possível, sim, fazer ciência e tecnologia de alta qualidade e ter um impacto sócio-econômico-industrial sem o qual o país estaria, hoje, enfrentando seriíssimas dificuldades nas áreas de alimentos e energia.

    A questão fundamental, no caso da computação, é a da definição de uma agenda para pesquisa e desenvolvimento em uma área onde boa parte dos mecanismos de produção e mercado é altamente internacionalizada na maioria dos setores. Sem um correto entendimento do meio e uma definição de parceiros efetivos para a transformação de protótipos em produtos, para a geração de spin-offs, criação de parques tecnológicos, para demandar pesquisa básica e de longo prazo, não há nenhuma chance real para uma inserção do setor de pesquisa e desenvolvimento nos processos sociais e seu consequente desenvolvimento sustentado.

    Claramente, a pesquisa e desenvolvimento brasileiros na área de computação precisam atingir um patamar em que a cooperação e integração entre institutos e centros de pesquisa saiam do nível pessoal e do acaso para fazer parte do planejamento e gestão de tais instituições e da parcela da sociedade a elas diretamente relacionada.

    A pergunta a ser respondida é: o que já fizemos nesta direção até agora, como avaliamos nosso avanço frente ao cenário internacional e como projetar os próximos passos, a médio e longo prazos?
  1. O Balanço do ProTeM: o que foi feito e o que falta fazer?
    Gentil Lucena, CPTE/CNPq.

    O programa ProTeM foi pensado a proposto pela comunidade de computação ao CNPq como um esforço coordenado para elevar o nível de formação de pessoal, pesquisa e desenvolvimento da computação no Brasil a ponto do país poder competir internacionalmente em um número de áreas, mudando a ordem de magnitude do financiamento e o modo e método de fomento. Ainda mais, o ProTeM surgiu para contribuir para um maior espalhamento do esforço de P&D pelo país, cuidando para que, em todos os projetos financiados, centros de excelência se associassem, obrigatoriamente, a grupos emergentes, criando um mecanismo, de fato, para compensação das desigualdades regionais.

    O sucesso ou fracasso de um programa de governo não se mede somente com estatísticas, que muitas vezes podem ser manipuladas para mostrar a face desejada da moeda. No caso do ProTeM, não só os dados físico-financeiros são muito alvissareiros, após 5 anos da concepção do programa, mas mudou, também, por tudo que pode ser avaliado, o espírito da comunidade e seu relacionamento interno e externo.

    Há uma colimação muito maior do esforço de pesquisa e uma ação bem mais ampla da comunidade e um claro entendimento do setor de pesquisa e desenvolvimento e dos órgãos de governo de que a única proteção efetiva que o mercado pode ter é a qualificação e a competência desenvolvidas no país. Depois de cinco anos, é chegada a oportunidade de rever os acertos, os erros e omissões do programa, bem como pensar o seu futuro.

    Agora que o processo está institucionalizado no CNPq, que criou uma coordenação específica para programas temáticos, cabe-nos não só avaliar sua amplitude e efeitos, mas aproveitar a oportunidade para definir e planejar os próximos passos. Em uma área de rápido ciclo de vida como computação, é papel fundamental da comunidade científica estar à frente do mercado, exercendo seu papel desbravador.

    Com uma integração formal e informal cada vez maior entre os programas DESI, representada por uma grande participação de grupos de pesquisa e projetos associados ao ProteM no esforço do Softex e RNP, com a participação do Softex nos departamentos acadêmicos através do projeto Genesis, com um amplo envolvimento, principalmente da comunidade de redes de computadores, no Comitê Gestor da Internet/Brasil, precisamos definir, agora, os pontos mais importantes que o programa ProTeM deve atacar nos próximos 5 anos.

    Devemos focalizar ainda mais a pesquisa? Talvez cuidar para um envolvimento direto de grupos acadêmicos em grandes desafios brasileiros que, para sua solução, dependem fundamentalmente de tecnologias da informação? Que programas seriam estes? Que desafios de curto, médio e longo prazos dependem de esforços de grande porte da pesquisa e desenvolvimento em Ciência da Computação? Ainda mais, quem são os possíveis interlocutores institucionais, dentro e fora do governo, que podem demandar ações do ProTeM para resolver grandes desafios nacionais?

    Deve o programa se envolver nos problemas associados à pobreza (Comunidade Solidária), educação (MEC, que está possivelmente adquirindo 300.000 computadores a curto prazo!), saúde (em todos os aspectos, desde diagnóstico e seus problemas até informatização em larga escala), indústria em geral (com Intranet para qualificação ISO9000?), ou devemos nos ater aos problemas clássicos da computação e tecnologias da informação?

    Certamente ambos, e precisamos definir prioridades, esforços e parceiros. Tratando destes problemas estratégicos, de planejamento de médio e longo prazo e administração do programa, estaremos cuidando para que o ProTeM mantenha uma dianteira e uma forte liderança no âmbito nacional, no que diz respeito à definição das reais prioridades nacionais na área e seu financiamento apropriado, de forma a realizar os objetivos do programa, entre os quais está o de causar um impacto sócio-econômico-industrial cada vez maior, da área de computação, como resultado dos esforços induzidos, articulados e financiados pelo ProTeM.

    Somente assim o programa se manterá à frente do seu tempo e será capaz de atingir seus objetivos de forma plena.


4. Conclusão

Cada um dos temas brevemente resumidos nos itens das seções 2 e 3 será objeto de um debate de 2 horas no SECOMU 96, que será taquigrafado e editado para publicação no máximo 30 dias após o evento. Juntamente com as contribuições iniciais de cada líder de seminário ou apresentador principal de cada painel, o conjunto de textos deverá servir não só de balizamento para a atividade política da SBC nos próximos anos mas também como um referencial para outras discussões que devem se realizar nos mais diversos foros onde os interesses da comunidade de computação estiverem em pauta.

Cada um e quase todos nós já tivemos em algum tempo, a impressão de que nossa participação em um curto debate leve a resultados duradouros, quando, na verdade, os únicos diálogos capazes de resultar em algum resultado de longo prazo são aqueles que tomam meses para preparar e anos para desenvolver. Raros são os casamentos que duram e resultam de um namoro curto.

Decerto, é preciso uma participação ativa e constante de toda a comunidade de computação, para que o processo de definição e planejamento das ações de amplo espectro e longo prazo resultem em benefícios sociais que, por sua vez, possam levar a um reconhecimento cada vez maior da importância das tecnologias de informação e de sua comunidade acadêmica para o país.

Em grandes números, entre 1985 e 1995 o tamanho da comunidade foi multiplicado por 10, de cerca de 70 para 700 pesquisadores com doutoramento. É preciso que este crescimento tenha uma contrapartida equivalente na participação política e na atividade social da comunidade, sem o que teremos grandes dificuldades já no futuro próximo.

A existência de três programas prioritários em Informática, no Ministério de Ciência e Tecnologia, é hoje a mola mestra e força motriz da área. Uma feliz junção de necessidades, fatores políticos e um humanograma, no governo federal, capaz de definir propósitos e objetivos e articular a área foram fundamentais, até agora, para um crescimento da Computação muito acima de quase todas as outras áreas do conhecimento.

Precisamos nos preparar para os próximos ciclos, contribuindo, enquanto comunidade, para a formação da política na nossa área, sem deixar de considerar que não somos importantes ou necessários porque existimos e somos competentes, mas porque estamos em um país que precisa, e muito, do nosso esforço para seu processo de desenvolvimento.

Um Brasil mais soberano, rico e justo. Isso é o que interessa a todos. Preparemo-nos para ajudar a definir o contexto onde nos tornaremos parte deste processo. Se não o fizermos, alguém fará.

Recife, 20 de maio de 1996.